Entretanto foi assim que aconteceu

Quando a notícia é só o começo de uma boa história CHRISTIAN CARVALHO CRUZ

É Vuitton, irmão!

FOTO: TIAGO QUEIROZ / AE / REPRODUÇÃO

Wallid Ismail não almoça. Ele finaliza a comida. Ex-campeão de jiu-jítsu e vale-tudo, agora maior empresário de lutas no Brasil, o cara come como se tivesse um problema pessoal com a salada à sua frente. Quatro ou cinco garfadas, menos de dois minutos e o prato está liquidado, totalmente grogue, esvaziado de alfaces, tomates e sentido. Então ele se levanta e enche outro, só com folhas e um canelone de ricota, pois é vegetariano. Pergunta pro garçom qual dos azeites é o mais light. Volta pra mesa e mais uma vez ataca com fúria a refeição indefesa. Ladies and gentlemen, eis um duplo nocaute gastronômico conquistado no quase vazio restaurante do hotel Caesar Business, em São Paulo.

“Estou numa dieta violenta, irmão”, é o Wallid que diz, recostado na cadeira, alisando o abdome, enfim satisfeito e seguro na recusa da sobremesa. “Tenho tendência. Se vacilar, engordo. Hoje às 5 da manhã já fiz uma hora de esteira e 50 minutos de transport (um aparelho de ginástica).” Antes porém, como em todo despertar, repetiu pra si mesmo o mantra matinal que gosta de ensinar a seus lutadores e a quem mais estiver por perto, porque “modéstia à parte” é “bom em dar conselhos” : “Abriu o olho, parceiro, pensa que é o dia da luta. Mentaliza. Mesmo que não seja. Tem que ir pra vida como se fosse pro octógono (o ringue dos tempos modernos). Ou é calça de veludo, ou é bunda de fora. Não tem meio-termo comigo, entendeu?” Ô.

É assim, na pressão, que Wallid vem vivendo desde os 11 anos, quando resolveu aprender jiu-jítsu em Manaus, onde nasceu. Garoto roliço, queria emagrecer e calar a boca – às vezes literalmente – de quem o chamava de baleia e peixe-boi. Conseguiu muito mais. Aos 43, ele é dono do Jungle Fight, o maior evento nacional de lutas marciais mistas, o sanguinolento MMA. Sim, o próprio. O antigo vale-tudo, que mudou de nome e recebeu uma demão de verniz ao adotar 31 regras – algumas bem esquisitas, com todo o respeito. Se antes o quebra-pau fazia jus à alcunha e vice-versa, hoje nem tudo vale: é proibido “agarrar, beliscar, torcer a pele ou carne” e “intencionalmente colocar um dedo em qualquer orifício do oponente”. Enfim… O fato é que, ao disciplinar a coisa e torná-la mais atraente para a TV, o interesse e o dinheiro afluíram. O americano Ultimate Fighting Championship (UFC), transmitido para 130 países, é visto em 1,2 milhão de domicílios nos Estados Unidos, faturando US$ 70 milhões numa única noite. Como marca, vale mais de US$ 1 bilhão, segundo a revista Fortune. Seus lutadores podem receber US$ 3 milhões por luta. No Brasil, o MMA entrou até para a novela das 9 e deve virar reality show na Globo no ano que vem. O canal especializado Combate, da Globosat, cresceu 91% em relação a dezembro de 2010; conta 164 mil assinantes.

Wallid trabalhou pra isso e como poucos soube aproveitar. Seu Jungle Fight tem 12 patrocinadores, da gigante coreana Kia Motors à Diolaser, uma empresa de depilação de Sorocaba (SP), interessada em remover o rótulo “coisa de boiola” da aragem corporal masculina. “Hoje eu sou o único empresário do ramo que vive exclusivamente de promover lutas. Não tenho academia”, bate no peito Wallid. No comando de 20 funcionários diretos e “uns 100 indiretos, se você contar o pessoal do som, da iluminação, essas coisas”, ele produziu 12 noitadas de MMA este ano, com plateias de até 15 mil pessoas (contas dele) e transmissão do Combate e da ESPN americana. Em 2012, pretende fazer dois Jungle Fights por mês e estrear a versão feminina da pancadaria, já batizada de Pink Fight. Pesquisas indicam que 30% do público de MMA é feminino. As moças assistiriam ao pega-pra-capar com intuito de “desestressar” em primeiro lugar, mas também para fazer companhia aos namorados e ainda por causa de certo sex appeal dos musculosos trajando short agarrado sobre o tablado. “O Pink Fight vai ser um sucesso. E sabe por quê? Porque eu sou um poliana, sempre acredito que dá certo.” Wallid assevera, respirando fundo antes de completar: “Quando não dá eu faço dar. É só olhar pra mim”.

Olhemos pra ele. Wallid não é tão grande nem chega a ser deformado de tanto músculo. Faltam-lhe cabelo e pescoço, mas é um sujeito equilibrado na proporção: 1,72m, 78 kg. Mantém as unhas no capricho, é atencioso e cavalheiresco. Fala sempre num tom doce com a esposa Daniele, a quem trata por “benzinho” e “meu amor”. Sorri ao descrever seus cãezinhos, a poodle Belinha, o yorkshire Bom-Bom e o husk Brad, “de Brad Pitt mesmo”. Só que tem um jeito apavorante de olhar pros outros, com uns olhões esbugalhados, o direito um pouco mais que o esquerdo. São como duas câmeras de vigilância, constantemente a perscrutar qualquer tentativa – involuntária que seja – de o interlocutor lhe passar uma rasteira verbal. Se ele está de lado ficam mais evidente o seu nariz achatado, o queixo pronunciado e as orelhas em forma de brócolis, resultado de anos e anos de atrito com o quimono e o tatame. Do conjunto todo, Wallid preza mais as orelhas. “Tem lutador que faz plástica pra consertar. Eu não faço. Elas são as minhas medalhas, provas de que o nortista aqui venceu.”

Quando tinha 15 anos, Wallid foi de ônibus pro Rio de Janeiro para treinar com Carlson Gracie, da lendária família de lutadores de jiu-jítsu. Tomou aulas em troca da limpeza da academia, muambou videocassetes da Zona Franca de Manaus e passou meses fazendo apenas uma refeição por dia. “O dinheiro não dava pra almoço e janta, então eu escolhia jantar, porque a pior coisa que tem é dormir com fome”, ele relembra. Daquele tempo, mantém o hábito de comprar “um biscoitinho de queijo Piraquê, o mais baratinho do mercado”, pra não esquecer. “Quem já foi duro, irmão, não quer voltar a ser.” E ainda guarda dois ensinamentos do pai, um mascate libanês de quem ele fala pouco. O velho dizia pros cinco filhos (Wallid é o do meio, espremido entre quatro irmãs) que “neste país, nortista como vocês têm que trabalhar em dobro” e “a vida é uma venda, tudo se negocia, tudo tem preço”.

A preferência de Wallid é pelos preços altos; se for com etiqueta à mostra, melhor. Camisa polo Prada ou Dolce&Gabbana, maleta Empório Armani, Mercedes C200 blindado e um relógio que ele esconde no bolso quando o trânsito engarrafa. “O cinto não é Yves Saint Laurent, não. Você viu errado. É Vuitton, irmão”, ele corrige, enfático, quando eu me atrapalho com as letras da fivela. “Eu gosto de coisa boa e não sinto vergonha de tê-las.” Diz que aprendeu isso “na América”, que é como ele chama os Estados Unidos. Lutou lá muito tempo e tem apartamento em Los Angeles, com outro Mercedes, um CLS550, e um BMW X5 na garagem. Viaja frequentemente, mas nunca pra descansar. “Porque, como eu digo pros meus funcionários e lutadores, férias, só quando a conta do banco estiver lotada, pela boca.”

No entanto, mais do que grana, Wallid quer é recall. “Em cinco anos o MMA vai ser mais popular do que o futebol no Brasil. Escreve aí e me cobra depois”, sugere. Eu obedeço. Ele continua: “Meu maior desejo é deixar um… um… como é mesmo aquela palavra?, tem um amigo meu que sempre usa… Pô, irmão, diz aí você que é jornalista. Como é? Legado! Eu quero deixar um legado! Daqui a meio século as pessoas vão olhar pro que virou o MMA neste país e lembrar que aquele cara que chamavam de paraíba foi o grande responsável por esse… esse legado. Porque, olha só, ao contrário do futebol, no MMA não dá pra fazer corpo mole, não tem passinho pro lado, não tem boate na véspera da luta. É tudo muito simples: ou o cara se empenha ou apanha. Se o lutador não dá o máximo de si, só ele perde. O público não perde nunca. É isso que faz o MMA tão apaixonante!” Com aqueles olhões soltando faísca, o corpo inclinado sobre a mesa e uma xícara grande de café que ele tomou com cinco pacotinhos de adoçante, quem é que vai contrariar o homem?

Levemos a conversa para um território mais ameno. Como é dar um murro desses de MMA, quando o oponente está no chão?, eu quero saber. “Nada de especial. Nem dar, nem levar. É só trabalho. Imagino que seja o mesmo que operar, prum cirurgião. Ou escrever uma notícia, prum jornalista. O que você sente quando escreve?”, Wallid pergunta. Solidão e, ocasionalmente, alguma dor, eu respondo. “No MMA não tem dor! Nem remorso, sofrimento, pena. Aliás, essas são palavras que me fazem mal, detesto.” E ele aponta para o aparelho de TV ligado no lobby do hotel: “Olha lá! Isso aí é que é violência”. Um jogador de futebol acabara de aplicar uma voadora nas costas do adversário.

Wallid faz as coisas parecerem extremamente simples. A busca por lutadores, por exemplo. Ele tem mais de 200 no plantel e percorre academias do Brasil todo a fim de selecionar novas estrelas pro Jungle Fight. É um serviço parecido com o dos olheiros do futebol. Mudam, talvez, os critérios de avaliação, que são apenas três: o olhar, a gana na hora de agarrar o adversário e os gemidos – a ausência deles, no caso. “Se o cara diz ‘ai’, já sei que não é do ramo”, simplifica. Wallid paga R$ 1.000 na primeira luta de um novato. E mais R$ 1.000 em caso de vitória. No quinto combate, quem não beijou a lona pelo caminho pode receber até R$ 150 mil. E os muito bons acabam exportados para o UFC, pagando a Wallid comissões pelos ganhos no exterior.

Com o papo fluindo cada vez mais leve, resolvo arriscar: Tem lutador gay no MMA? Wallid solta um silvo, chupa saliva por entre os dentes, e se ajeita na cadeira. Dá uns tapas no nariz (no dele, obviamente, afinal estou aqui pra contar), um jeito meio brusco de se coçar, e põe-se a pensar. O silêncio é longo até que ele finalmente fala, num tom muito calmo de voz: “É um esporte bem machista, não vou negar. Se tem homossexual no meio, não conheço. Mas não faria diferença. O que adianta ser homem macho e vagabundo, traíra, desonesto? No fundo é o caráter que conta”.

Ele diz que nunca foi santo, e testemunhas contam que uma vez o viram “se atracar igual cachorro” numa briga pra valer com um colega de academia. Nem a polícia conseguiu apartar. Mas agora se considera um ex-valentão que o tempo transformou em “Wallidinho paz e amor, um homem que é puro autocontrole”. Ri ao saber do lutador de MMA que, horas antes, reagindo a um assalto, pôs o ladrão pra dormir. “Haha, ele conseguiu, é? Maneiro.” E relembra, rindo ainda mais, um episódio ocorrido naquela manhã, no voo que o trouxe do Rio para São Paulo. Um passageiro tirou do lugar a maleta de Wallid do bagageiro e a porta não fechou. A aeromoça quis levar as coisas lá pra frente, ele se ergueu: “Nada disso, foi o rapaz ali que causou a confusão. A senhora leve as coisas dele, se quiser. As minhas ficam onde estão”. O rapaz ali resmungou que não tinha que ficar recebendo lição de moral. Wallid o olhou com aqueles olhos, aquelas orelhas, aquele nariz achatado, aquela testa franzida. E voltou a se sentar. Estava com fome, queria sua barrinha de cereal.

[FOTO TIAGO QUEIROZ/AE/REPRODUÇÃO]

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Publicado às 12 de dezembro de 2011 por em perfil e marcado , , , , , , , , .
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