Entretanto foi assim que aconteceu

Quando a notícia é só o começo de uma boa história CHRISTIAN CARVALHO CRUZ

A maldição da chuteira


Mais do que o maior espetáculo da Terra – sorry, Carnival -, a Copa do Mundo que entra em sua derradeira semana encerra uma saga cinematográfica: a do mexicano Alejandro González Iñárritu, o cineasta de Amores Brutos, 21 Gramas e Babel. E encerra com a carga máxima de um bom Iñárritu: cheia de dores. Falo do comercial que ele filmou para a Nike, um curta-metragem de três minutos chamado Write the Future(Escreva o Futuro) estrelado pelas maiores estrelas do futebol internacional. Iñárritu está todo ali, com sua desorientação temporal, as narrativas múltiplas, os cortes finos e tensos, a fotografia vibrante. Só é curioso que a Nike tenha chamado um artista obcecado pela incomunicabilidade humana para fazer justamente uma peça de comunicação. Mas deixe estar. O resultado é não menos que sensacional, como atestam as mais de 18 milhões de vezes que o anúncio já foi visto no YouTube desde maio.

Mas àquilo que estreou como épico a Copa fez o desfavor de dar um epílogo com ares de maldição tragicômica. Com a queda de Portugal e Cristiano Ronaldo e do Brasil e Robinho nas quartas de final fechou-se o ciclo dos astros de Iñarritu, que chegaram à África do Sul na condição de Marcellos Mastroiannis da bola e voltaram para casa com o filme queimado – uns mais, outros menos, mas todos com a película tostada. São eles, pela ordem de aparição na propaganda: Drogba, Cannavaro, Rooney, Ribéry e Cristiano Ronaldo.

Se entendi bem, o comercial é sobre triunfar ou fracassar, glória ou anonimato. É sobre como todos podemos traçar nossos destinos, virar nome de estádio, sir inglês, estátua em praça pública, ou acabar um barrigudo pobre morando num trailer e comendo grude. A diferença entre um futuro e o outro estaria no uso ou não das chuteiras da marca, é claro.

Mas já diria o filósofo Pelé que o futebol é uma “little box of surprise”. E, apesar da genialidade do comercial de Iñarritu, sem dúvida um dos marcos desta Copa de poucas emoções, deu tudo errado. O marfinense Drogba, gigante no Chelsea, da Inglaterra, era para ser um dos artilheiros do Mundial. O roteiro era esse. Marcou um solitário golzinho contra o Brasil e naufragou com sua seleção. E o italiano Cannavaro, capitão da Azzurra que levantou a taça em 2006? No filme da Nike ele ataca de salvador da pátria ao afastar uma bola, um gol certo, de bicicleta. E então corta para um programa de auditório em que o crooner Bobby Solo, o Elvis Presley da Itália, exalta o beque, que ri com todos os dentes enquanto mocinhas de collant dançam dentro de bambolês. “C’è Cannavaro! C’è capitano! C’è Cannavaaaaarooo”, canta solo o seu refrão pegajoso. Podia bem virar “c’era Cannavaro” depois da falha medonha do capitano contra o Paraguai, que culminou no empate do adversário e ajudou a Itália a não passar da primeira fase. C’era Cannavaro, pois ele anunciou aposentadoria do posto.

O anúncio foi elaborado durante um ano pela agência de publicidade da Nike. Depois, lá se foram três meses de filmagens e edição. Houve locações na Espanha, na Itália, no Quênia e na Inglaterra. Quanto custou é um segredo, mas entendidos do mercado dizem que não se espantariam que o spot de três minutos tivesse consumido mais dinheiro do que um ou dois longas de Iñárritu. A Nike não comenta oficialmente a, digamos, maldição. Um de seus assessores no Brasil afirmou que “Copa do Mundo é assim mesmo, os times vão sendo eliminados, não dá pra impedir”. Correto. A eliminação não dá para impedir. Mas e a eliminação sem que os astros-craques fizessem aquilo que se esperava deles – incluindo a Nike e seu comercial? Parece que eles resolveram escrever um futuro diferente…

Ronaldinho Gaúcho também está no filme, mas seu futuro sem presente foi Dunga quem escreveu (por tortas linhas, ok). A Nike tentou contornar isso tempos depois rodando 30 segundos exclusivos com Robinho. Sexta, contra a Holanda, ele tentou vencer na base do chilique, gritando com um adversário caído. No futuro escrito por suas pedaladas no comercial ele vira moeda, alegoria de carnaval e até santo. Quase ninguém soube: 500 mil espiadas no YouTube. E o inglês Wayne Rooney, então? No comercial, ele está impagável como o Rooney que deu certo (feito sir pela rainha e humilhando Federer numa partida de pingue-pongue) e também como o Rooney que deu errado (o pançudo morador de trailer que pinta as riscas do campo em que um dia sonhou brilhar).

No comercial, um Rooney dá certo e outro (este) fica pobre, pançudo e mora num trailer (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Na vida real, é menor que um Serginho Chulapa. O brasileiro marcou duas vezes em 82, o inglês tem só um gol em Copa, em 2006. Em 2010, até o sul-africano Tshaballa foi maior que Wayne Rooney.

Mas o futuro dele, o de nenhum dos Nikeboys – pra dizer a verdade, o de nenhum jogador que veio à África do Sul, seja da Nike, da Adidas, da Puma… – vai mudar como num filme de Iñárritu. Pelo menos não por causa do futebol. E isso fica claro numa zona mista pós-jogo. Zona mista é o corredor por onde os jogadores deixam o estádio. Antes de chegar a seus ônibus eles param, se tiverem vontade, para falar com os jornalistas.

O que se vê ali, quando estão à paisana, banhozinho tomado, é uma competição entre homens querendo mostrar quem tem o relógio maior, mais caro e mais cafona. Todos levam um no pulso. E também quem é dono dos mais possantes fones de ouvido para seus iPods. No momento, vence quem tiver um modelo da linha Monster Bucks, idealizado pelo rapper americano Dr. Dre. Serve só para ouvir música (não faz ligações, não paga conta no banco nem frita ovo) e pode custar US$ 400. Esses caras já escreveram seus futuros.

— publicada em 04/07/2010 —

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