Entretanto foi assim que aconteceu

Quando a notícia é só o começo de uma boa história CHRISTIAN CARVALHO CRUZ

Malvinas, PB

Nos ecos da guerra Argentina-Inglaterra, paraibanos da gota invadiram um casario que o mato comia e ali fizeram sua colônia

Delegacia. Uma luz mole, a TV sintonizada no chuvisco, ventilador voraz e, atrás da mesa manca de asseio, um polícia sofrendo de desequilíbrio de pertences. O que lhe sobrava de revólver na cinta, ô Jesus!, lhe faltava em dentes na boca. Foi de beiço murcho e sem desatolar-se da cadeira que ele atendeu o cabra comparecido ao plantão apresentando um riozinho de sangue descendo pelo braço. E rogando:

– Quero fazê queixa d’ua mulé que me furô.

– Furou, foi?- Cacho d’uamigo meu. Eles brigaram na rua, sobrou.

– Faca, foi?

– Vi não. Era um breu da peste.

– Tu é daqui?

– Sou não. Do Ceará.

– Então tu vai primeiro no hospital fazer curativo, pegue o atestado e volte depois. Pegue atestado, vi-se?

– Si siô.

– Ôxe! Essa Malvinas…

“Essa” Malvinas não são aquelas da famosa guerra de argentino com inglês. Estas estão léguas mais pra riba. Ficam no quengo da Borborema, a serra mágica de onde vem a fresquecência que abranda um pouco o sol naquelas bonitezas de agreste. Pra resumo, estas Malvinas são o bairro mais populoso de Campina Grande, a segunda cidade da Paraíba. Dos 400 mil campinenses, 80 mil são malvinenses. O polícia diz que cidadão furado não é comum de aparecer ali. Em compensação, Lei Maria da Penha, bebum e briga de vizinho, ave maria, de dúzia. Inda ontem teve um que se enforcou. Mas é coisa rara perto dos priscos dias. “Nas atualidades, estas Malvinas são paraíso, o repórter nem imagine.”

Pois lhe conto como esse lugar se deu. E por que tal nome recebeu. Pros lados do açude de Bodocongó, que Elba Ramalho cantou como “ai, ai, ai que coisa boa”, o governo estadual levantou 3 mil casinhas brancas em 1981. Batizou-se o sítio de Conjunto Habitacional Álvaro Gaudêncio, destinado a funcionários públicos previamente cadastrados e fincado a dez quilômetros do centro – um ermo da moléstia. Sucedeu que dois anos se avoaram sem entrega de chave. As moradas estavam quase nos trinques, com porta, janela e até telhado. Faltava água, luz e esgoto. Na demora, o abandono se juntou ao mato e pronto: engoliram as casinhas caladas. Em março de 1983, uns roceiros da fazenda vizinha, terras de dona Dinamérica (ou dona Mequinha, escolha tu), deram início ao apossamento. Entraram e ficaram. A notícia correu mais que bode em véspera de buchada. Por todo canto da cidade, vizinho contou pra vizinho. As rádios noticiaram. E logo estava assim de gente se achegando, numa procissão sem fim nem começo. Vinham pelas ruas de terra com o saco de roupa na cabeça, a fieira de filho pela mão e o sonho da casa própria invadida pela frente. Em dois dias as pequeninas e idênticas habitações de um e dois dormitórios estavam tudinho tomadas.

Mas, rapaz, o governador desgostou completamente. Mandou a tropa enrolar o conjunto com arame farpado e montar guarda. Quem saísse não voltava. Quem ficasse que morresse de fome e de sede. Uns saíram. “Meu irmão acabou trocando a casa que invadiu por um toca-fita. Tinha condições, não. A situação era calamitosa, repressão demais”, relembra o artesão Roosevelt Fernandes da Silva, que hoje faz alpercatas à moda do cangaço no centro da cidade. Mas muitos mantiveram posição. Primeiramente porque o prefeito, inimigo do governador, tapeava o cerco mandando caminhão-pipa e caixa de biscoito pro povo. Segundamente porque um polícia ou outro facilitava o entra e sai, por mera simpatia ou por um trago de cachaça. De todo jeito, a tensão era tanta, aquele monte de arma, farda, coturno – e já que se tratava de uma invasão, como a dos argentinos -, logo alguém comentou: “Óxente, tamo na Guerra das Malvinas é?!”

Já fazia oito meses que a peleja no Atlântico Sul se encerrara. “Mas o apelido grudou igual pirão e, olhe, digo mais, de alguma forma aumentou a vontade do povo de se organizar e resistir”, acredita Adigelson Cavalcante, invasor de primeira hora e ainda hoje morador. Batizar localidade com nome de guerra não era uma novidade em Campina Grade. Nos anos 40, auge do algodão, fazendeiros no Nordeste inteiro compareciam à zona do baixo meretrício comandada por Maria Garrafada, Madame Zefa Tributino e outras damas da noite. Por causa do conflito sino-japonês da mesma época, a região ficou conhecida como Manchúria – variando às vezes para Mandchúria ou, mais no popular, Mandchula.

Nas Malvinas, cinco meses de cerco depois o governador viu que não tinha mais jeito. Mandou imprimir os carnês e transformou os invasores em mutuários. Só que o aperreio não cessou aí. A infestação de sapo, grilo e cobra até foi fácil de sanar: capinou-se o matagal. Mas a falta d’água e de luz só não era pior do que o pavor de perder a casa pra outro invasor. Houve caso de gente que foi visitar um parente do lado de lá do conjunto e quando voltou encontrou família nova jantando em “sua” casa. Achar a própria morada era outra dificuldade, pois por muito tempo inexistiu nome de rua, numeração, direção. “Eu era cobrador das Casas Pernambucanas e queria morrer quando precisava procurar cliente devedor nas Malvinas. Aquilo no verão era poeira, no inverno era lama. Levava um dia todinho pra achar uma pessoa que normalmente não queria ser achada”, diverte-se Biagio Grisi, outro artesão do centro da cidade.

Aos poucos se foi dando um jeito, daquele jeito. Surgiram os jegues-pipa que abasteciam os tonéis de cimento que o pessoal comprava a dez qualquer dinheiro. “Cabiam 50 litros. Dava pra um dia contadinho se a família não tivesse muita criança com banho”, calcula Estelita Salustiano, 69 anos, da primeira turma de invasores. À noitinha, a prefeitura mandava um caminhão encher o tanque da igreja, onde se formava uma fila de senhoras com latas, baldes e conversê a postos. Era o programa antes de dormir, às 19h, já que não havia muito pra fazer naquela escuridão. De longe, uma beleza de se ver. Do bairro da Prata, lá pro centro, quem olhasse pras Malvinas enxergava uma porção de fogueirinhas nos quintais. “A gente sofria gostoso, vi-se?”, ri dona Estelita. Até as reinvasões acabaram quando uma mente sagaz escreveu assim na parede, com caco de telha: “Esta casa pertence à prima de Ataliba”. Ataliba Arruda, temido matador em Campina Grande, uma espécie de Zeca Diabo que andava a cavalo e, dizem, apertava o gatilho só de não ir com as ventas do futuro defunto. A ideia foi copiada, variando-se o parentesco, e logo Ataliba, sem querer nem saber, ganhou uma avantajada família de mentirosos malvinenses. “Aqui mora o tio de Ataliba”. “Aqui mora o cunhado de Ataliba”. “Aqui mora a sobrinha de Ataliba…” E assim ninguém mais bulia com ninguém.

A luz chegou às tomadas em dezembro daquele ano e a água às torneiras em março de 1984. A rede de esgoto e o asfaltamento vieram em 1986, e o lixeiro, apenas em 1988. Mas tudo só depois de muita reunião, passeata e reivindicação. Por força das circunstâncias, o malvinense se tornou antes de tudo um forte. Pra ele, a velha querela semântico-ideológica que difere “invasão” de “ocupação” não existe. O malvinense se diz invasor “com orgulho”, porque lutou por moradia e venceu. Daí que no carnaval ele desfila na escola Invasores do Samba. No famoso São João de Campina Grande, o Arraial dos Invasores já foi até campeão. E é lendário o primeiro salão de baile do bairro, o Forró dos Invasores (vulgo forró da facada). Não por outra, os moradores encheram a paciência da Câmara de Vereadores até que em 1987 as Malvinas se tornaram oficialmente um bairro – com papel passado e nome no mapa. Nem na letra do Hino das Malvinas, de autoria de Adigelson, se encontra a palavra ocupação. Ele mesmo canta, com seu tipão mezzo Nelson Gonçalves mezzo Waldick Soriano: “Minha Malvinas querida / Relembro a sua invasão / Onde um povo bravo e unido / Conquistou a sua habitação / Ó Malvinas querida / Tu és fruto de um povo herói / Que pra conquistar a sua casa / Gritou numa só voz: vamos nós!”

Hoje as Malvinas se assemelham a qualquer periferia de cidade grande, com todas as carências e problemas no pacote, só que bem mais coloridas e com reboco. De dia faz um sol tamanho que, sem bloqueio de prédio, nuvem ou pé de árvore, queima olho de humano e faz cachorro ter preguiça de descomer na calçada. Fica um sossego da gota. Quem sai à rua está sempre de sombrinha. Há um comércio variado, de oficinas mecânicas a salões de beleza – a maioria erguida no que antes era o chão da frente das antigas casinhas. Por ali é quase tudo home office. Quando a noite cai e o vento sopra da serra, a coisa anima. Uma turma vai pra igreja, outra pra faculdade e tem aqueles que vão até a esquina mesmo, esparramar-se nas mesinhas de plástico dos bares cuja luz é mais forte que a lâmpada do poste. Aqui e ali se ouve forró ecoando estridente dos microsystems.

E eita povo pra falar de política, não sabe?, embora lide de maneira peculiar com ela. Não está escrito, ninguém fala, mas a bula é simples: a gente gosta muito de quem faz muito pelo bairro, gosta pouco de quem faz pouco e não gosta nada de quem faz nada. Uma característica que o locutor Leonivan Bezerra, da rádio comunitária Lagar FM, define como “malvinismo”. Os políticos compreenderam o estilo desde o início.

Em 2004, ano de eleições municipais, o então governador Cássio Cunha Lima (PSDB), hoje senador, anistiou quem ainda devia prestações de seus imóveis. Foi uma festança como há muito não se via nas Malvinas, com direito a fogueiras pra queimar carnê. “Todas as minhas campanhas eleitorais eu começo pelas Malvinas”, diz o atual prefeito de Campina Grande, Veneziano Vital do Rêgo (PMDB), um cabeludo de 41 anos e dono de um aperto de mão forte que nem alicate. “Pra vencer eleição na Paraíba tem que vencer em Campina Grande. E pra vencer em Campina Grande tem que vencer nas Malvinas – pelo menos metade dos moradores são eleitores”, ele resume. Foi nessa base que ao longo do tempo os malvineses conseguiram as dez escolas, as seis creches, o mercado municipal, o hospital de trauma, os dez postos de saúde, a delegacia do banguela e, tome isso abestado!, até um selo dos Correios…

“Mas ainda falta uma área de lazer e um banco”, avisa Jairo Miranda, o presidente da Associação de Moradores das Malvinas. Pra muito malvinense, Jairo é pai e mãe. Telefonam pra ele por tudo – e por nada. O cabra não sai do celular. Dona Tertuliana quer saber se já veio o cheque da seguradora para consertar as rachaduras na casa dela. Seu Verginaldo pede ajuda com o funeral da sogra. Rosivânia quer companhia pra levar o filho ao pediatra. Na quinta-feira 22 de março, Jairo recebeu 712 chamadas. For dormir com um dorflex na cabeça e uma bolsa de gelo na orelha. Se os argentinos quiserem uma consultoria, ele está à disposición, vi-se?

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Publicado às 1 de abril de 2012 por em reportagem e marcado , , , , , , .
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