Entretanto foi assim que aconteceu

Quando a notícia é só o começo de uma boa história CHRISTIAN CARVALHO CRUZ

O mar ruge

E, todo som e fúria, enquadra o surfista de ondas gigantes que teima ficar em pé

[Foto: Tó Mané/BarcroftMedida/OtherImages - Reproduzida da página do Estadão]

[Foto: Tó Mané/BarcroftMedida/OtherImages – Reproduzida da página do Estadão]

Bons dias. Meu nome é Oceano e eu estou prostituto da vida. Oceano Atlântico, se queres por inteiro. Atlântico Norte, costa de Portugal, se queres mais detalhes. E o que me encrespa além do normal é esse americano Garrett McNamara, que deu de vir aqui todo inverno me desafiar. Andam a dizer que na segunda-feira me subjugou. Talvez não seja bem assim, talvez seja exatamente assim. Verás adiante. Digo-te, contudo: pouco me importa. Nada pessoal contra o Garrett, acho-o até um bom sujeito e que me quer bem. Mas é da minha natureza, tu és capaz de entender: tenho por sina derrubar da prancha os homens que se lançam a mim quando estou de humor azedo, e eu não gosto se não a realizo. Em novembro de 2011, neste mesmo fulo litoral da Nazaré, a meio caminho entre o Porto e Lisboa, mandei ao Garrett uma parede d’água que se erguia 78 pés alta – 23,7 metros. Ele a deslizou, deslizou, deslizou… Eu atrás, todo som e fúria a morder-lhe os calcanhares. A certa altura o golpeei com um safanão de espuma, engolindo-o por completo. Cheguei a apalpar o regozijo do dever cumprido. Ele apenas abriu os braços como um equilibrista na corda bamba seguro de si e saiu ileso do outro lado. Ileso e recordista mundial com a marca aferida e registrada no tal Guinness Book. Garrett McNamara, 45 anos, estadunidense de Pittsfield (Massachusetts), residente no Havaí, o surfista que pegou a maior onda da história.

Achei que se daria por satisfeito. Sua cara após o feito, os olhos estupefatos como se houvessem visto a morte, ornava com suas palavras desconexas: “Esta onda é… mágica… muito, muito… misteriosa. Você nunca sabe o que vai te tirar de lá”. Mas não. Um ano e pouco passado ele retornou. E na segunda-feira pode ter descido uma onda maior, quiçá 100 pés, 30,4 metros, um prédio de dez andares. E se uso o “pode” não é por despeito, afinal a onda já está descida, ele não caiu, e sobre isso não tenho mais poderes. Mas é que os especialistas ainda vão lhe confirmar as medidas com base na esplêndida fotografia desta página. Saí bem, convenhamos, embora (não fosse a preguiça do vento) devesse ter quebrado mais virulento às costas daquele minúsculo ser humano. E eis que emerge um problema. A imagem foi sacada de cima para baixo, seria fiel ao reclame dos 100 pés? “O time de Garrett McNamara acredita que a onda surfada na segunda era mais alta do que a de 2011, mas para evitar polêmica nós pedimos a certificação a fim de confirmar o tamanho dela antes de falarmos em um novo recorde”, disse Miguel Sousinha, presidente da Nazaré Qualifica, a empresa municipal que contratou o Garrett para me desafiar e, assim, divulgar a cidade como polo turístico. E, sabes bem, esse pessoal do marketing não brinca em serviço – já está a se referir àquele dia como Big Monday.

Polêmica posta, o fotógrafo luso Tó Mané, autor da imagem, não alonga a discussão. “Se dizem que o meu ângulo favorece a onda, até fico orgulhoso. Todos os bons fotógrafos favorecem o assunto ao fotografar. Eu não estou preocupado se a foto é da maior onda do mundo. Acho que ela é linda na sua essência, quer a onda fosse a mais pequena do mundo”, ele comentou. Disse que fez o click a cerca de 1 quilômetro de distância, de um lugar secreto, usando uma teleobjetiva de 600 milímetros. E disse também que seus dois colegas postados em ângulos e alturas diferentes não conseguiram fotografar o Garrett no mesmo momento porque uma onda intrometida teria lhes tapado a frente. “Vai me desculpar, cumpádi, mas onda se mede com fotos tiradas de dentro d’água ou da praia, nível do mar. Do contrário, tudo se mistura e não dá pra saber onde está a base da morra”, opina o brasileiro Carlos Burle, também um recordista em ondas gigantes (as morras, como ele diz) e um dos dez insanos do planeta que ganham R$ 500 mil por ano para me encher o saco nos meus piores dias.

Na Nazaré por muito tempo eu desfrutei de sossego. Antes de esse Garrett aparecer, o que nutriam por mim era tão somente temor. Também, eu pegava e arrebentava mesmo – os pescadores e os barcos, porque os surfistas não eram tão necessitados de me enfrentar. O que tenho aqui é um desfiladeiro subaquático de 170 quilômetros de extensão por 5 de profundidade que canaliza as ondas do alto-mar e as faz chegar à costa quase sem perda de energia, fabulosas, monstruosas. “Até então as morras mais desafiadoras eram as da Baía de Jaws, no Havaí”, explica o também brasileiro Sylvio Mancusi, que já derrubei algumas vezes. “Mas o que faz essa praia portuguesa única é, primeiro, que as ondas gigantes quebram a 150, 200 metros das rochas. Vacilou, vai ver Jesus. E, segundo, o fundo de areia e pedra torna as ondas imprevisíveis, ao contrário de Jaws, cujo fundo de coral as deixa mais uniformes, embora não menos gigantes.” Ou, acrescento eu, meu irmão Pacífico não é de nada.

Aprecio mais a descrição que fez de mim uma repórter alfacinha com pendores fernando-pessoísticos. Permita-me reproduzir suas palavras: “Não se pode contar todas porque são muitas as histórias das vidas perdidas, os homens e mulheres que desapareceram ou que choraram quem já se perdeu. O mar da Nazaré pode ser bravo, traidor para quem lhe dedica a vida, assustador para quem de lá tenta sair em dias de tempestade, agonizante para quem espera que um milagre traga de volta quem desapareceu em mais uma noite de temporal e escuridão. As histórias de naufrágio se repetem. O amanhecer desta praia deixa vestígios da força que todos lhe reconhecem e até admiram. Barcos presos na areia, vidas que não se encontram mais e a certeza de que outros dias e noites virão para marcar a história deste mar bruto que pode ser belo. Aqui ninguém sabe como vai ser o amanhã. E assim vai continuar”.

Será que continuo? O temor das gentes parece ter caído um nível, para o do respeito, depois da chegada do Garrett. Ele conta que um habitante local lhe enviou por e-mail a foto de uma onda gigante quebrando bem defronte o penhasco do farol, perguntando se ela era surfável. O gajo, que já tinha surfado até onda nascida da queda das placas de gelo de um glaciar no Alasca, veio conferir. E cá estamos nós: ele querendo me domar; eu, apeá-lo da prancha; e a municipalidade a divulgar a Nazaré de 15 mil habitantes como rota turística.

Por isso, segundo o Burle, mesmo que a Big Monday não tenha sido tão big assim, o objetivo do Garrett está cumprido. O mundo inteiro falou da onda gigante da Nazaré. A fotografia do Tó Mané foi parar até na capa do Times de Londres. “Surfe em onda gigante é isso aí, bróder, mais promoção que competição. E o Garrett fez o trabalho para o qual ele foi contratado, que era promover Nazaré.” Não sei bem por quê, mas essa frase do Burle me levou numa marola lenta a outro Garrett, este natural da terrinha. O Almeida Garrett, querido romântico por quem tenho mais simpatia e que deixou escrito isto aqui: “Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isso, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”. E o que têm a ver tais palavras com o surfe e o turismo? Talvez a Troika, a crise que draga todo Portugal, a “austeridade”, não faço ideia…

Sei que, apesar da beleza que eu e as falésias sempre proporcionamos, o apelo da Nazaré andava defasado. Apoiava-se numa lenda e na fé do povo. Diz que em setembro de 1182 um cavalheiro de nome D. Fuas Roupinho perseguia um veado sobre a falésia envolto por denso nevoeiro. Ao chegar à beirada do precipício, o cervo tendo passado batido e despencado lá embaixo, D. Fuas, cujo cavalo já tinha as patas dianteiras no vazio, invocou: “Valei-me, Nossa Senhora!” Ela lhe valeu. O cavalo estancou na hora, D. Fuas se safou e de imediato foi agradecer à santa que veneravam numa gruta ali perto – uma imagem da Virgem dando o peito ao Menino, cuja confecção em madeira é atribuída ao próprio São José carpinteiro. Bonita história, mas a prefeitura apostou que eu e minhas morras pudéssemos exercer maior fascínio, passados todos esses séculos, principalmente sobre os mais jovens.

Não vou discordar. E tenho a meu lado a jornalista americana Susan Casey, autora de A Onda, um eletrizante e pormenorizado relato sobre o que ela chamada de “a força mais poderosa da natureza”, “sonho dos surfistas, pesadelo dos pescadores”. Surpreende-se a rapariga: “Que tipo de gente busca uma onda de 100 pés? É a coisa mais contraintuitiva do mundo. A maioria de nós fugiria gritando de ondas do tamanho de um prédio. Então, a minha conclusão é que surfar uma onda gigante é mais um chamado do que um esporte”. E continua: “Os surfistas que as experimentam estão 100% presentes naquele momento, não pensam em nada mais. E têm uma colagem de sensações: barulho, luz, plenitude, entrega total”. Como a fazer um complemento, a brasileira Maya Gabeira afirma que uma onda gigante é um organismo vivo, “parece ter vida própria, e quando uma delas me derruba, me puxa pro fundo num caldo interminável, eu só consigo pensar na minha família”. Ó coisa linda. Já o Sylvio Mancusi, mais debochado, diz que levar um caldo de uma onda gigante é “se sentir um pé de meia dentro de uma lavadora de roupa”. Pois sim, gostei da definição. Agradeço a preferência.

Na segunda-feira vi o Garrett me deixando para trás, com sua prancha debaixo do braço. A distância não pude perceber se sorria, mas apostaria que sim. Apesar de tudo, estou certo de que é um bom homem. Não chego, como sua mulher, Nicole, a chamá-lo de “meu príncipe encantado, meu rei” só porque num dia de queda de energia ele trouxe um caldeirão de água quente para que ela pudesse terminar o banho. Mas acho que podemos nos entender um dia. Ele classificou a experiência que lhe proporcionei essa semana de “divertida”, o que me soou desrespeitoso. Ele está a aprender certas coisas, porém. Lembrou que no passado gostava de dizer que “se não pode te matar, não é radical”, mas que depois de Nazaré passou a pensar diferente, que “qualquer coisa que te desafia como indivíduo pode ser radical”. Gosto assim, mais pé no chão. Algo me diz que ele vai voltar, não importa quantos recordes consiga quebrar. E isso sim me aborrece. Porque era só o que me faltava um outro nazareno a fazer estripulias sobre a água!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 3 de fevereiro de 2013 por em perfil, reportagem e marcado , , , , , , , , .
%d blogueiros gostam disto: