Entretanto foi assim que aconteceu

Quando a notícia é só o começo de uma boa história CHRISTIAN CARVALHO CRUZ

…e nós precisamos falar sobre o Kevin

Kevin Espada

Kevin Espada

Num dia, você vê seu filho de 14 anos eufórico com a chance de ir ao estádio assistir ao time do coração dele enfrentar um grande campeão do mundo. No dia seguinte, você vê seu filho de 14 anos morto sobre a mesa de um necrotério, ensanguentado, com um projétil cravado no olho. Já pensou nisso? Eu não consigo parar de pensar desde a quarta-feira 20, quando a TV anunciou que, no jogo San José x Corinthians, em Oruro, pela Libertadores, um menino boliviano de 14 anos chamado Kevin Espada morrera ao ser atingido por um sinalizador naval disparado por um torcedor corintiano. Não teve briga. Kevin estava apenas fazendo o que a maioria de nós faz num estádio de futebol: via o jogo. Podia ser eu. Ou você. Podia ser meu filho. Ou o seu.

Primeiro torci para que o Corinthians – “sempre altaneiro”, diz o hino – aceitasse calado e envergonhado sua eliminação do torneio, o que fatalmente viria. E, não vindo, que pedisse para sair, fazendo (outra vez o hino) do seu presente uma lição. Até sexta-feira, 1º, nem uma coisa nem outra. E, então, incapaz de entender ou aceitar que “futebol é violento mesmo, o clube não tem culpa, não se pode punir toda a torcida pelo crime de um torcedor, etc., etc., etc.”, procurei o historiador Hilário Franco Júnior, professor aposentado da USP, grande medievalista e autor de um livro fundamental sobre futebol: A Dança dos Deuses (Companhia das Letras, 2007).

A certa altura, no livro, ele escreve o que me parece ser uma das chaves para compreender a violência nas arquibancadas: “As sociedades ocidentais contemporâneas perderam o efeito tranquilizante do grupo. Para o ser humano o ‘estar junto afetivo’ é sensação reconfortante, e negada quando ele está inserido em conjuntos demasiado amplos e abstratos, como megalópoles, empresas multinacionais. Esse diagnóstico conclui que a formação de clãs futebolísticos e o poder de atração que eles exercem são soluções espontâneas contra o isolamento. Fazer parte de um desses grupos é dotar-se de nova personalidade, é conseguir nova inserção social, que por se tornar estruturante para o indivíduo pode levá-lo a exageros em nome dela”.

Propus ao Hilário não uma entrevista, mas um bate-papo em que pudéssemos dividir inquietações. Eu em São Paulo, ele na França, onde mora e prepara novo livro sobre futebol e um sobre utopias na Idade Média. A conversa se deu por extensa troca de e-mails – e sem o vinho, infelizmente.

Oi, Hilário. Viu a morte do menino boliviano no jogo do Corinthians? Isso pegou muitos corintianos de jeito… Eu tenho, ou tinha, prazer de torcer pelo Corinthians na companhia de meus filhos, de 8 e 14 anos também. Hoje mais pela TV do que no estádio… Mas depois do que aconteceu em Oruro eu gostaria de ver o Corinthians se retirar da Libertadores por vontade própria. Questão de dignidade. Pensa: e se o time for campeão de novo? A Fiel vai comemorar?

Olha, a primeira coisa que me chama a atenção é você ver o Corinthians mais na TV do que no estádio. Por quê? Simples comodismo de não ter de pegar o carro, enfrentar trânsito, procurar vaga, aguentar flanelinhas, estar mal instalado nos nossos estádios? Ou, conscientemente ou não, evitar riscos para você e teus garotos? Quer dizer, parece que o futebol passou a ser diversão somente quando profilaticamente isolado na sala da própria casa. Ao vivo, no calor do estádio, o que seria – e é em locais civilizados – boa parte da curtição, o programa familiar tornou-se arriscado e evitado. Assim como andar pela cidade precisou ser substituído por andar pelos shoppings. Também acho que o Corinthians deveria se retirar, mas realisticamente se pode acreditar nisso? A diretoria do clube está mais próxima dos corintianos conscientes, talvez uma espécie de maioria silenciosa, ou do bando de marginais que ocupam parte significativa do estádio a cada jogo do time?

O Frei Betto diz que os shoppings são como as catedrais. Vamos com roupa de missa e experimentamos uma sensação paradisíaca com aquela tranquilidade. Se pagamos à vista, nos sentimos no céu; a crédito, no purgatório; e, se não temos dinheiro pra comprar, no inferno. Mas terminamos todos numa eucaristia pós-moderna, dividindo o refrigerante e o hambúrguer de uma cadeia transnacional de sanduíches saturados de gordura…

E é assim que muitos acreditam que deva ser o estádio modelo para a Copa e o pós-Copa no Brasil. Todos queremos mais conforto e segurança, porém um estádio, ao contrário do shopping, não pode ser algo anódino onde as pessoas se distraem mais com comidinhas e desfile da última camisa do time ou da seleção. Um estádio deve ser, como na Inglaterra, algo aberto, vivo, caloroso. É verdade que antes eles eram horrorosos. O hooliganismo teria mesmo surgido como uma resposta a essas condições: “Quando se tratam os torcedores como animais, eles acabam por se comportar como animais”, disse o sargento Graham Naughton, especialista em hooliganismo na Football Intelligence Unit. Mas não basta conforto, é preciso vigilância e repressão – palavra expurgada pelos politicamente corretos – para os faltosos.

Na quarta, o Corinthians jogou sem torcida no Pacaembu. Punição da Conmebol. A morte do garoto foi lembrada no minuto de silêncio e na fita preta na camisa. Mas a alegre comemoração dos gols pelos jogadores aumentou o mal-estar. Como se a noite dissesse: ‘Foi só mais uma morte no futebol; será esquecida, tudo ficará bem’.

Pedagogicamente, a exclusão do Corinthians de toda competição internacional por dois ou três anos é inegociável. Os clubes ingleses foram suspensos por cinco anos depois da tragédia de Heysel, em 1985. Alguém poderia dizer que ali morreram 39 e em Oruro só 1. Óbvio que esse raciocínio é absurdo, em uma só pessoa está toda a humanidade. Ademais, há um agravante em Oruro: a morte não resultou de uma briga como em Bruxelas, com as vítimas podendo se defender ou tentar fugir. Na Bolívia foi homicídio premeditado (se não, por que levar o sinalizador ao estádio?), aleatório (não visava a uma vítima em particular) e gratuito (não tinha motivo). Falando uma língua que os cartolas entendem: se o Corinthians tiver a coragem de se autoexcluir estará realizando uma jogada mercadológica de maior alcance que a contratação do Ronaldo Fenômeno. Isso modificaria a imagem do clube. Além disso, a Gaviões ficaria isolada no conjunto da torcida corintiana, o que seria um bem para o clube e para o futebol em geral. Mas, como essa hipótese é boa demais para ser factível, resta à Conmebol fazer o que a Uefa fez em 1985. Só que o perfil de seus dirigentes não dá margem para otimismo. Talvez a ambição daquela gente restitua um pouco nossa esperança, pois excluir um clube como o Corinthians daria maior força à confederação e ao projeto de alguns cartolas de chegarem à direção da Fifa.

O técnico Tite disse que trocaria o título mundial ‘pela vida desse menino’. Não tenho dúvida de que foi sincero. Mas deixa eu te provocar: o que você faria no lugar dele? Acho que eu pediria pra sair, seria duro demais continuar trabalhando com essa sombra…

Também acredito na sinceridade da declaração dele. Mas neste país as frases vazias são tão frequentes que a do Tite corre o risco de ser assim interpretada, porque todos sabem que o título e a morte são irreversíveis. Não sei o que faria no lugar dele, mas sei que sentimento teria além da indignação: medo. Mesmo tendo dado à torcida o maior título da sua história, o que garante que amanhã, com as vitórias cessando (e uma hora elas vão acabar), o Tite não possa ser visado por aqueles que se definem orgulhosamente como “bando de loucos”? Pedir demissão? Acho que sim. Mas, para que o gesto repercuta deveria ocorrer antes de uma decisão institucional. Tanto o profissional quanto o homem Tite sairiam engrandecidos.

Em nossa primeira troca de e-mails você comentou que o episódio ocorre num momento em que a torcida não está frustrada pela falta de títulos. O que quis dizer?

Muitas vezes se explicava a violência da Gaviões como resultado da frustação social (“Cheiro farinha, fumo maconha / Sou corintiano, maloqueiro e sem-vergonha”) e esportiva (falta de títulos internacionais), mas isso não se sustenta quando o episódio de Oruro ocorre poucos meses depois da primeira Libertadores e do Mundial de Clubes. Por contraditório que pareça, o estado de euforia de qualquer torcida provoca excessos, mesmo mortíferos. Um indivíduo psicologicamente frágil tomado pelo entusiasmo (“ter um deus dentro de si”, diz a etimologia) coletivo pode tornar-se outro. E, enquanto tal, cometer atos que em condições normais não aconteceriam. Mas não se pode perder de vista que, além da euforia propriamente futebolística, o Corinthians vive uma euforia política que pode criar em certas parcelas da torcida um sentimento de superioridade e impunidade. A grande personalidade política nacional da última década, o ex-presidente Lula, sempre revelou seu lado corintiano. Não somente foi um entusiasta da construção do Itaquerão, que tudo indica ter contado com sua intervenção nos bastidores, como continuou a intermediar as negociações entre a construtora e o clube. Ora, Lula nega ter participado do mensalão, e “peixes menores” é que foram julgados e condenados. De forma semelhante à que a Gaviões parece estar fazendo ao resguardar alguns de seus membros deixando a culpa cair sobre um torcedor menor (na idade e no peso político dentro da torcida). Tanto os condenados do mensalão quanto o torcedor que confessou o crime parecem movidos pelo mesmo sacrifício a uma causa maior que poderia ficar comprometida – o projeto de poder do PT e o projeto Corinthians maior clube do mundo.

Pensando no futebol como parte da formação e expressão, onde foi parar o povo cordial do Sérgio Buarque de Holanda, se entramos num estádiode futebol levando artefatos que podem matar? 

Nesse ponto discordo de você. A violência praticada por esses brasileiros (que um indivíduo tenha acendido o petardo não isenta os outros que sabiam da intenção e estavam em torno dele) confirma que somos um povo cordial no sentido de Sérgio Buarque de Holanda, isto é, que tomamos tudo pelo lado afetivo. Essa cordialidade etimológica e brasileira é o oposto de civilidade, como a tragédia de Oruro demonstrou.

Ainda nessa questão da identidade, o que mudou do período em que éramos só uns vira-latas, como dizia o Nelson Rodrigues, para a fartura de cinco títulos mundiais?

Passamos do complexo de vira-latas a uma espécie de complexo de pedigree: “com brasileiro não há quem possa”, “o país do futebol”. Mas com o tempo fomos intuindo (excluídos os patrioteiros de plantão), a contragosto, que não é bem assim. Depois do tri de 1970 levamos 24 anos, o tempo de seis Copas, para ganhar de novo, e com um estilo e qualidade que nada tinham a ver com 58-62-70. Nosso campeonato nacional teve em 2012 média de público de 12.983 torcedores. O campeonato alemão no primeiro turno (segundo semestre de 2012) 45.124. Na Inglaterra, o clube de menor média de público (Swansea, na verdade galês) apresenta número superior ao brasileiro, 15.507. Continuar a adotar o futebol como expressão da identidade nacional poderia causar nova crise identitária.

O crítico cultural Lee Siegel, ao tratar do massacre de crianças numa escola americana, escreveu no Aliás sobre a despersonalização dos tempos modernos, dos videogames, onde matar um ser humano é tão banal quanto chupar um picolé… No futebol, o que mais despersonaliza as relações humanas?

A despersonalização do Siegel se cruza com a “civilização do espetáculo” do Vargas Llosa, e o futebol é uma boa síntese dos dois conceitos. Se algumas personalidades chamam atenção no mundo do futebol – Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar, Balotelli -, é como exceções que confirmam a regra da despersonalização e alimentam a do espetáculo. O torcedor, por definição um anônimo na massa, quer muitas vezes não somente ver como participar do show. Coreografias, cânticos, gritos de guerra, faixas das torcidas fazem delas atores. Mas atores coletivos, o que pode não satisfazer alguns torcedores que procuram ser protagonistas dentro da massa torcedora e do espetáculo como um todo. É por isso que de vez em quando um torcedor invade o campo nu; outros usam fantasias espalhafatosas nas arquibancadas; e tem aqueles que provocam brigas. Tudo é bom para atrair as câmaras, para ganhar a sensação efêmera de existir. Mesmo se à custa da existência do outro, em casos limites como o de Oruro.

Você vê diferença entre um brasileiro que mata uma criança com um sinalizador e um italiano que joga bananas pro Balotelli? Ou os russos que pedem a saída do brasileiro Hulk do Zenit ‘não por racismo, mas por tradição, pois é cultura do clube só ter jogadores brancos’? Será que o futebol é permissivo demais com certas barbaridades? Por quê?

Há muita diferença entre matar um jovem de 14 anos e ofender moralmente alguém. O ofendido pode voltar pra casa, encontrar os pais, os filhos, os amigos, comer, dormir, fazer amor, desfrutar de prazeres da vida, porque essa não lhe foi gratuitamente roubada. Não se pode é fazer vista grossa para preconceitos, porque eles alimentam o sentimento de que a força do grupo tudo permite e em outro momento pode gerar violência física. Mas não é o futebol que é permissivo, é a sociedade na qual se aceitam fatos assim no futebol, como se esse esporte fosse ou pudesse ser um mundo à parte, desculpável pelos seus excessos.

E a saideira, pra pedir a conta: o fato de a tragédia ter acontecido na Bolívia, um país, junto com o Paraguai, para o qual nós brasileiros olhamos com desdém, merece alguma reflexão?

Acredito que sim. Isso só poderia ter acontecido na América Latina, pois, apesar de “loucos”, os torcedores organizados não são bobos. Sabem que na Europa, nos EUA ou no Japão o policiamento seria mais eficiente e as brechas legais bem mais estreitas. Também não acredito que tivesse acontecido na Argentina devido à capacidade de resposta das torcidas locais. Ou seja, tratou-se de ato covarde em todos os sentidos.

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